27 de dezembro de 1896
Querido Henry,
Ainda não recebi carta sua, mas não me preocupo com isso, pois compreendo a distância e isolamento do local onde moro. Mas já lhe escrevo novamente pois estou me sentindo sozinho e prisioneiro de memórias que creio que só deixarão minha mente se eu as contar a alguém. Nesses momentos até desejo voltar a Londres, mas você entenderá que há motivos para minha recusa em fazê-lo.
Voltando a minha história, passei algumas semanas sem sinal qualquer da garota. Eu não acreditava estar sozinho, no entanto. Sabia que ela voltaria, algo em mim me dava essa certeza. Mas dediquei esses dias a entender o que ela poderia ser. Tentei desenhá-la. Ao menos a memória que eu tinha dela. E quando mais minha imaginação aflorava, mais detalhes eram acrescentados. Eu saà a capital também, especificamente em busca de informação. Fui a uma biblioteca e passei o dia em pesquisa. Aquela garota parecia humana, e eu estaria certo que era, se não fosse seu desaparecimento. Era impossÃvel que uma pessoa pudesse sair de um lugar a outro desse forma, não havia tempo para que ela tivesse se deslocado para fora de meu campo de visão numa fração de segundos. E sua fala sobre humanos, como se fossem um grupo a que não pertencesse, confirmava a teoria. Fiquei com a possibilidade de um fantasma, mas parecia ser feita de carne e osso e estava tão presente ali que descartei a ideia. Pensei em uma fada ou ninfa, e talvez uma vampira. E essas foram minhas opções depois de horas debruçado sobre livros de lendas e mitos
Talvez você pense que enlouqueci, mas eu estava completamente são. Quando nós nos deparamos com experiências sobrenaturais, entendemos que tudo pode ser tão real quando nos permitimos enxergar. Você deve achar tudo isso uma grande baboseira, e eu estava cético no inÃcio. Buscava apenas inspiração, mas não imaginava que encontraria uma história pronta para ser escrita.
Quando voltei de meu dia na cidade, já era tarde, e mesmo assim decidi procurar por ela novamente. Já tinha feito isso algumas vezes, sem sucesso, mas dessa vez estava esperançoso. E ao voltar aquele lago onde a tinha visto pela primeira vez, a encontrei deitada na margem.
- Você estava atrás de mim? - ela perguntou, parecendo já saber a resposta
- Estava. à um pouco solitário aqui, sabe? Seria bom ter uma boa amizade
Ela riu, e nesse momento, com a luz da lua incidindo diretamente sobre seu rosto, reparei primeiro na palidez dela. Tinha ignorado, a princÃpio. E depois notei o ponto mais importante: seus caninos! Eram como presas, eram como o que eu imaginava ser os dentes dos vampiros. Era isso! Finalmente a comprovação de uma de minhas teorias!
- Tem algo de estranho em mim? Por que você está me olhando a tanto tempo? - ela parecia nervosa agora
- Posso lhe fazer uma pergunta
- Pode!
- O que você é exatamente? - tentei ser o mais vago possÃvel, esperando que ela entendesse o que eu queria dizer com a pergunta
- Sou Katerina - ela disse, ainda naquele tom brincalhão
- E sua... espécie, qual é?
- Você pode dizer que acha que sou um monstro, não tem problema. Vocês humanos são assim! Você já está com medo, não é?
- Não, não estou com medo! Só curioso
-Bem, eu sou o que você chamaria de... vampiro! Já desconfiava, certo? Estranhei você não ter notado antes
- Sim, eu desconfiei. Na verdade me baseei em algumas pesquisas e possibilidades, achei que você poderia ser uma ninfa ou uma fada também
Ela gargalhou. E eu continuei a pensar sobre como gostaria de conhecer melhor sua história
Creio que continuarei essa narrativa depois. Como já disse, não desejo contar tudo de uma vez. Espero que sua carta chegue em breve, mas não se sinta pressionado a escrever!
Com amor,
Seu amigo para todo momento, Eddie
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